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Coluna da Minéia Gomes
26/02/11 - Fractais ou têmperas...
A pintura quatrocentista regida por conceitos de simetria de funcionalidade era conhecida pela imagem calculada, arquitetada, conceitualizada e construída. Primando pela objetividade, a imagem renascentista fugia da subjetividade humana e respondia bem a investigação científica e ao uso de “máquinas”. A era digital, marca o retorno dessa imagem objetiva, que tende ao desejo renascentista da imagem puramente conceitual, já que os algorítimos de visualização permitem a construção de universos abstratos puramente matemáticos. No entanto a imagem sintética ainda sofre com a utopia do total controle do visível, obsessão dos renascentistas. O realismo praticado por essa imagem é fruto da lógica matemática e não da percepção do mundo real. Ainda mais calculadas, coerentes e formalizadas que as imagens renascentistas, as imagens digitais ganham um certo realismo que de alguma forma dá continuidade ao princípio do registro fotográfico. De certa forma, os algoritmos de visualização permitem restituir sob forma visível e perceptível as abstrações matemáticas, ao mesmo tempo que descrevem numericamente as imagens.
Segundo Baudrillard (1992) é a imagem que tem se tornado cada vez mais virtual e distante do real. Não se opondo a ele, mas aos ideais de verdade que existem. A imagem hoje é nada mais que uma forma de controle do tempo, pois o “real”, sempre vai sofrer alterações a partir de uma nova leitura, seja ela feita através de uma nova tecnologia ou de um novo pensamento. Nesse caso nem a realidade factual estaria preservada por causa da maleabilidade do processo de digitalização.
Para Arlindo Machado (2001;p.15) “ o artista da era das máquinas é, como o homem de ciência, um inventor de formas e procedimentos; ele recoloca, permanentemente em causa as formas fixas, as finalidades programadas , a utilização rotineira, para que o padrão esteja sempre em questionamento e as finalidades sob suspeita.” Acredita-se que a moderna produção tecnicamente mediada, pode interferir diretamente nas formas de percepção da imagem, sendo ela cada vez mais ágil e mais facilitada em sua execução. No entanto o feitio da obra artística, ou melhor do duplo da imagem, ainda continua subordinado aos vários aspectos da percepção que o ser humano – alvo da obra – deve ter. A máquina realiza o trabalho, mas cabe ao artista o trabalho intelectual e a atividade imaginativa e ao público a identificação da obra.
O aspecto abordado aqui refere-se a todo esse entendimento de como o Moderno é subvertido pelo pós-moderno e como este age no processo de criação e percepção do mundo. Para Touraine (1999; 17) “ A modernidade não é mais pura mudança, sucessão de acontecimentos, ela é difusão dos produtos da atividade racional, científica, tecnológica e administrativa.” Eleanor Hertney (2002; 6) completa afirmando que “o pós modernismo ... é inconcebível sem o modernismo. Pode ser entendido como reação aos ideais do moderno...” . Podendo ser apontado como ícone da pós-modernidade, a imagem sintética, rege-se justamente pela simulação do mundo e não sua apresentação racional ou científica. Sua formação, possível pela revolução tecnológica, subverte a ordem da realidade e do palpável, como afirma Baudrillard (1991; 8) “a simulação de um território, de um ser referencial, de uma substância. É a geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade : Hiper-real.”
BAUDRILLARD, Jean. A Transparência do mal: ensaio sobre os fenômenos extremos. Jean Baudrillard; tradução: Estela dos Santos Abreu. 2ª edição, Papirus, Campinas, SP, 1992.
------------------------------. Simulacros e Simulação. Jean Baudrillard; Trad. Maria João da Costa Pereira. Relógio D’água, Lisboa, PO
ARNHEIM, Rudolf . Arte e Percepção Visual: Uma psicologia da Visão criadora. Trad. Ivonne Terezinha de Faria. Livraria Pioneira editora, SP, 1996
MACHADO, Arlindo. Máquina e Imaginário: O desafio das poéticas tecnológicas. 3º Ed. Editora da Universidade de São Paulo, SP, 2001.
HEARTNEY, ELEANOR . Pós-Modernismo. Trad. Ana Luiza Dantas Borges. Cosac & Naif, SP, 2002
TOURAINE, Alain . Crítica da Modernidade. 6ª Edição. Vozes, Petrópolis,RJ.
Imagens dos artistas: Phil Dune, Jonathan Wong e Uzeyir
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05/02/11 - O dono dos saberes - Entrevista narrativa
Ele estava de pé com seu uniforme azul encardido de terra vermelha. Tinha um sorriso largo daqueles que damos quando estamos orgulhosos de algo que fizemos. No seu crachá, talvez a única coisa branca além de seus cabelos fartos que o vento teimava em jogar no rosto, estava escrito “Serviços Gerais”. Foi com muito orgulho que afirmou que estava na universidade há 23 anos e que estava ali desde 1992, mostrando uma foto meio desgastada, onde estava afundado em um buraco junto a uma manilha quase do seu tamanho.
- Ajudei a erguer isso aqui filha... Não me imagino fazendo outra coisa na vida, do que trabalhar aqui.
De fato, mesmo forçado pela aposentadoria por anos de serviço, continua lá no seu canto fazendo seu trabalho. Mas algo que fica muito claro é a relação construída com o passar dos anos, entre os colegas de trabalho e o próprio espaço, onde segundo ele, pode se sentir mais em casa, conhece os animais pelo nome. “ ê negão”, grita pra um boi no meio do pasto do Instituto de Zootecnia. E pra meu espanto não é que o bicho responde... “Muuuuuuu!”.
- E aí minha gatinha! Foi meu aniversário ontem e você foi a única que não me deu uma abraço!
Agora grita pra uma colega da limpeza, uma senhora de seus 50 anos, rechonchuda e com um belo sorriso. Isso, claro, acontece enquanto andamos pelo caminho que leva ao Memorial do Cerrado, sua parte predileta dentro da UCG. Nesse caminho, que creio seja feito nuns 10 minutos, gastamos 20.
Não havia quem não fosse devidamente cumprimentado, ou aqueles que ainda conversavam algo mais específico, como futebol, família etc...
- Ô seu Evaristo, qual a nota do mengão de 0 a 10 ontem?
- Uai fi 8, né...
Logo que o rapaz passa ele diz:
- 8 nada, eu dou é 2. Mas diz a sabedoria popular que é melhor num contrariá...
O Seu Evaristo Lourenço Pereira tem 65 anos e veio da Bahia ainda menino. O sotaque perdeu-se no caminho, mas a ginga baiana não morreu. Cantador de primeira, adora uma batida de zabumba e não abre mão do violão e do pandeiro, que toca muito bem. Nessa toada estávamos chegando a um espaço onde são estudados os sons do cerrado e vejo então outro motivo pro seu Evaristo não querer sair dali: As fotos e os vídeos do grupo do qual faz parte e participa do estudo e releitura de músicas populares, próprias da tradição dos povos do cerrado. Então, cata o violão e começa:
- Marimbondo amarelo me mordeu/ Na lapela do olho me doeu/Nunca vi marimbondo que nem o seu/É o teu uai/ é o teu, teu, teu uai...
Assim que termina de cantar, com voz de tenor, sai me levando quase pela mão pra visitar o museu.
O vigor com que anda, me faz pensar na necessidade de uma urgente entrada pra academia... Afinal ele tem 65 anos e vendo o brilho no olho de estar ali, mas principalmente em ver que aquele trabalho é de interesse de alguém, parece algo impagável, ao honorável senhor. Observando seus companheiros vejo que nos mais antigos o brilho é o mesmo. Estranho pensar que nos dias de hoje onde o trabalho é apenas uma forma de sobrevivência alguns pessoas podem enxergar nos colegas de trabalho uma extensão da família. Ainda há prazer pelo trabalho.
Dono de um saber construído com a vida (não pôde terminar o primeiro grau e cursou até a sétima série) aprendeu no partidão, durante os anos de ditadura, que um homem sem conhecimento é um homem sem pão. Quando chegamos às portas do museu, muito orgulhosamente, mostrou-me a foto de antes, impressa num plotter meio desgastado junto a outras tantas. Ele estava ali marcado na memória daquele espaço, assim como seu nome impresso na placa, logo na entrada do campus II da UCG, como reconhecimento por seu trabalho.
Se pensarmos em termos de memória, para um homem como ele é uma grande honra estar marcado na história de uma instituição. Logo ele, que foi um menino que dividia um colchão com outros tantos irmãos, e que não tem muito costume de comer carne, porque nunca teve muita à mesa. De sua preferência, são a abóbora, a mandioca e o arrozinho com rapa. Ter o nome numa placa na entrada da UCG, talvez tenha sido muito mais que poderia esperar de status em sua infância.
Não poderia dizer que Seu Evaristo fosse daquelas pessoas que pela ligação afetiva exime-se de uma leitura crítica com relação ao seu trabalho. Pelo contrário, acabamos parando no meio do caminho quando ele encontra com outros dois funcionários.
- O senhor vai lá na reunião?
- Vamos sim, temos que sair com isso definido. Não podemos aceitar a postura da Universidade com relação ao sindicato.
- Bom seu Evaristo, tem que ser o senhor pra falar mesmo.
Seguimos caminho dentro do museu, e ele continua a falar sobre a política da universidade com relação aos funcionários. Principalmente os aposentados. A universidade pretende fazer negociações para não pagar os direitos dos aposentados. De repente ele pára e voltamos um bom pedaço.
- Tinha que te mostrar isso direito. Acabei falando do sindicato e esqueci de falar lá atrás.
Voltamos às portas do museu. Como estava ali com a honra de ter um guia exclusivo, formos adentrando aos corredores do museu novamente. Só que agora ele tinha uma missão. Não sei se os anos trabalhando no Instituto ou a curiosidade inata neste homem, fizeram com que entendesse toda aquela estrutura de uma forma simples, mas correta. O painel que mostrava a estrutura elíptica de formação do mundo através do big bang era-me ensinado de uma forma que jamais vira na escola, mas extremamente compreensível. Falava sobre o período pré-cambriano, o mesozóico, a medição da idade das pedras e o aparecimento do homem. Palavras e conceitos que me pergunto se alguns universitários ainda se lembram.
Acabei não resistindo à tentação e fiz uma armadilha teórica, pra saber se aquilo não estava somente bem decoradinho. Que surpresa! Recebi de volta outra indagação, que a priori, me deixou sem resposta. Naquele momento vi outro aspecto de seu Evaristo. Era um homem à moda antiga, sério. Percebeu que eu o estava experimentando e não gostou. Pensei logo no número de vezes que aquilo deveria ter acontecido, e penso que para um homem como seu Evaristo, este tipo de julgamento não seria bom.
- Os velhos têm que ser respeitados como os olhos de quem já viu muita coisa.
Achei sábias suas palavras e passei o resto do percurso escutando os saberes de que esse homem se apropriava sem nenhum medo ou receio pelo fato de estar conversando com alguém academicamente “superior”. Naquele momento gostaria de ter perguntado a opinião dele sobre isso. Talvez um sábio fosse formado por algo mais que letras, mas pela vida. E em 65 anos, creio que teve muito a experimentar.
Foi pai de três filhos e segundo a esposa que está com ele há 35 anos, nunca levantou a mão pra eles. Mas todos o tratam com tamanho respeito que sua palavra é lei. Trabalhando junto à esposa conseguiu juntar um patrimônio que hoje seria impensável a alguém que tem o título de serviços gerais. Passou por dramas difíceis na vida, principalmente a vitória sobre o alcoolismo, que hoje o faz grande batalhador dentro do SEREA, e junto a colegas e amigos de trabalho. Somada a essa vitória, a entrada na Universidade Católica foi outro ponto marcante em sua vida.
Estamos na cidade cenográfica, e a passarada não pára de cantar. Seu Evaristo dá um suspiro fundo, e começa a falar da ajuda que recebeu dos padres, das dificuldades que passou dentro do regime militar e de sua quase ida pra Cuba. Mas aí veio o caçula, filho temporão, raspa do tacho mesmo. E não teve jeito, teve que ficar e sofreu perseguições políticas. A relação com a igreja sempre fora muito próxima, um católico atuante que participava dos mutirões, novenas e teatros que eram promovidos dentro da diocese. Foi assim que, por intermédio de um amigo que ele não cita o nome, entrou como auxiliar de serviços gerais na faculdade.
Dessa época fala pouco. Sua esposa, Dona Waldete, é que fala um pouco mais, sobre os tempos difíceis, quando moravam no meio do mato onde hoje se situa hoje o Jardim Bela Vista. Moravam do lado de um perigoso assassino, que por acaso acabou se dando com seu Evaristo e por algumas vezes o livrou da surra ou do assalto. Como era combativo politicamente, sempre estava marcado nos locais onde ia, e sossego era palavra estranha no vocabulário da esposa.
- Evaristo nunca negou auxilio a quem pedisse se fosse comida, ou favor. Dentro do possível fez de tudo pela família. Sua única doença foi a bebida.
Sentamos um pouco no restaurante e pedi uma coca. Seu Evaristo preferiu um guaraná. Lembrou-se do quanto sofreu pra fazer daquele guaraná sua bebida sagrada. O dia que estragou a festa de 10 anos do caçula foi o marco divisório para escapar dessa doença.
- Olha, a bebida é o inferno de um homem. Eu vivia no inferno e não queria sair. No SEREA eu consegui me encontrar e graças a Deus pude ser um homem de novo.
Ele olhava ao redor como se buscasse em cada parede sua história. Estava ali tão enraizado quanto as árvores do cerrado. Sua relação era profunda com as plantas, as musas (estátuas de mulheres do cerrado que ficam logo na entrada do museu), os bichos e as pessoas. Limpou o óculos na camiseta, e ficou uns 5 minutos em silêncio assuntando um bem-te-vi que cantava ali perto.
Aquele era seu lugar, não era em casa, inútil, recostado à frente da TV vendo sessão da tarde. Era ali na lida, no cabo da enxada que ele era Evaristo. Era cruel ser obrigado a ter que se aposentar. O corpo ainda agüentava, talvez não tanto quanto antes, mas ainda era produtivo. Porque querem me matar? Talvez fosse esse o cimesmar dele naquele momento. Ou talvez ele só estivesse pensando no canto do bem te vi.
Penso nas complexidades da vida, que para alguns, nunca existiram. Talvez seu Evaristo seja um daqueles homens que enxergam a vida por uma ótica muito simples e por ser tão simples assim acabam por deixar confusos nossos pensamentos. O óbvio tornou-se algo muito distante de nós, por isso enxergamos tudo tão complexo.
- Quem fez essas estátuas das musas foi um artista chamado Guará. Aquele elefante lá dentro foi ele também. Fico impressionado como as pessoas têm uns talentos tão diferentes, né? O sujeito pegar e olhar um negócio na foto e fazer. É muita inteligência...
Quanta inteligência também não esta envolvida em ser autodidata em música, ou um folclorista? Em dar aula aos acadêmicos de biologia sobre as minhocas da região, sem ter o ensino fundamental completo? Sentados ali ouvindo o chiado nervoso da família do mico estrela, percebi no rosto macilento daquele homem, uma sabedoria que levaria um bom tempo para ser reconhecida pelas pessoas.
Em uma estrada de 65 anos completados no início do mês de outubro de 2010, foram anos de amizades, lutas políticas, inimizades, perseguições, alegrias, sofrimentos e medos. Aquele homem tinha medos profundos permeados por grandes vaidades, e um deles era desaparecer de toda a história que construiu. Não queria deixar o Instituto, porque o Instituto era ele e suas vivências. Desse tempo pra cá, foram 23 anos que lhe garantiram cargos diversos dentro da UCG. E foi seu jeitão articulado que fez dele, por algumas vezes, presidente da associação de servidores.
- Fia, cê me dá licença agora, que tenho uma reunião com o reitor. Ele num tá querendo dá pra gente os 13% de aumento e a gente tá querendo boicotar algumas atividades da faculdade. O povo fica dizendo que tá sem dinheiro e tal... se for assim, essa Universidade tá falida e às portas do fechamento, né não?.
Assim me despedi de seu Evaristo, vendo seu andado ligeiro indo sumir pelo meio do viveiro, e imaginando o que ele seria se tivesse chegado a uma universidade.
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29/01/11 - Lugares para rir e a domesticação do riso
Tanto Lipovetsky quanto Minois acreditam que o riso começa a morrer no final do século XX e dá seu último suspiro no século XXI. Banalizado, sabe-se que os lugares para rir firmados no século XVIII e XIX, já não existem mais. Todo lugar agora é de Rir. Para esses pensadores, a sociedade transformou-se num emaranhado de “gracinhas”, longe da agressividade escarnecedora do século retrasado, e mais próxima de uma política de boa vizinhança. O sério tornou-se antipático para uma sociedade que vive de propagandas. Toda seriedade deve viver um pouco do ébrio, do delicadamente cool .
Paradoxalmente, é com a sociedade humorística que na realidade começa a fase de liquidação do riso: pela primeira vez funciona um dispositivo que consegue dissolver progressivamente a propensão para o riso (LIPOVETSKY, 1983, p. 135). Minois (2005) afirma que “o riso moderno existe para mascarar a perda de sentido” (p. 632). De fato, se no início do século XX, a sociedade se tornou um emaranhado de espetáculos, e se esses eram os espaços reservados ao riso comedido da burguesia, para onde foi mandado ou escondido o riso popular? Tanto Minois quanto Lipovetsky, parecem pessimistas com relação aos caminhos do riso na pós-modernidade. No entanto, parece que a todo o tempo em seus escritos referem-se à sociedade de massa. E quanto àqueles que, vivendo fora do grande circuito, ainda riem-se dos trocadilhos, das relações do corpo, do Outro?
A sociedade do espetáculo de Guy Debord era, no princípio do século XX, a grande arma para a necessária descontração e distração, para a escalada do capitalismo. Nela, o riso embutido fazia parte do sonho, do imaginário. A imaginação era enriquecida e assim produzia risos suficientes para aquietar os corações dos civilizados. Mas havia aqueles também que ainda estavam distantes dos grandes espetáculos e que, por conta dos medias, acabavam sendo alvos.
Falamos aqui do rádio e do cinema, que atingiam diversas camadas de populações, perdidas num país de dimensão continental. Para Debord, o espetáculo “unifica e explica uma grande diversidade de fenômenos aparentes” (Kellner apud Debord, 2004, p. 5). Para estes que estavam tão distantes do grande centro, era preciso improvisar. O Jeitinho próprio do brasileiro acabava por fornecer opções criativas em cima do que existia. Eram criadas paródias, anedotas, contos, cordéis, causos, e se não “tinham ouvido na rádia”, “foi um cumpadre que foi pro sul que disse”. Mesmo dentro da dita civilização, havia ainda os caracterizados como jeca, roceiro, pobretão. E eram esses tipos “marginais” que faziam sucesso no cômico. Ainda hoje são personagens tidos como grotescos que levam ao riso, ao mesmo tempo em que se contrapõem às regras. Haveria um ar subversivo em Jeca Tatu , Macunaíma ou o primo Pobre ? Aqueles que parecem à margem do sistema, são vistos como contraventores, mas de uma contravenção sob medida. Os heróis de hoje são diferenciados. Como afirma Lipovetsky:
As personagens burlescas, heróicas ou melodramáticas fizeram seu tempo, hoje é o estilo aberto, desenvolto e humorístico que se impõe... o novo herói não se leva a sério, dramatiza o real e caracteriza-se por uma atitude maliciosamente desprendida ante os acontecimentos... não há entrada para ninguém que se leve à sério, ninguém é sedutor se não for simpático (LIPOVETSKY, 1983, p. 132).
Mas os lugares para rir não se definem apenas em espaços físicos. A moda, os comics, as gírias também se transformam em espaços (simbólicos) que abrem alas para a manifestação do cômico como modo de vida ou de enxergar a vida. As gírias, cada vez mais minimalistas, têm um ar debochado. Quanto mais solto, mais cômico, maior a simpatia que atraem. Os quadrinhos e a moda são outro termômetro gigante dessa sociedade banalmente risonha. Como afirma Lipovetsky:
Hoje a moda pertence ao desleixado, ao descontraído. O novo deve parecer usado e o estudado espontâneo. A moda mais sofisticada imita e parodia o natural, também aqui em paralelo com a descriação das instituições e costumes pós-modernos (LIPOVETSKI, 1983, p. 143).
Nos quadrinhos, vemos heróis cada vez mais atrapalhados, palhaços ou levemente cafajestes, o que dão a eles um ar cômico. Tempos atrás, havia um fórum da Man’s Health que falava sobre a preferência das mulheres por homens que as fazem rir. Nisso percebemos porque aumentou tanto o público feminino para quadrinho. Os heróis ficaram mais atraentes porque são simpáticos. Da mesma forma, um homem é mais atraente quando é simpático, engraçadinho. No Século passado, a figura de James Dean, com sua cara amarrada, fazia bater os corações femininos. Agora parece que o Homem Aranha, com suas tiradas satíricas, disputa lugar com o Frekazoide e Adam Sandler (há quem o ache um charme!). Eles são sensíveis, atrapalhados, carentes, mas na hora do vamos ver são pura testosterona. De fato, o riso parece estar por toda parte. Sendo assim, a ideia de um lugar para rir parece ultrapassada. E mais ultrapassado ficou o próprio riso, que se perdeu nessa eterna propaganda de margarina. Se antes ele podia subverter a ordem vigente, agora assimilado e dominado, ele ainda pode fazer algo? Talvez devêssemos resgatar o sério para poder salvar o riso da extinção em função do excessivo uso pela Mídia.
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21/01/11 - Meia noite ou quase nada
Era quase nada o fiozinho de luz que se estendia entre as copas das árvores. Pensava nisso enquanto descia aquela escada íngreme que levava à alameda logo abaixo. Via desenhado no chão com restos de gesso, todo tipo de palavrão conhecido da língua portuguesa e alguns acréscimos em inglês. Meio que entremeados a eles, havia sombras tão densas que eu tinha a impressão de estar andando numa espécie de gelatina escura.
Aquele telefonema estranho de horas atrás havia me levado àquela estranha alameda, que nem sabia existir naquela parte da cidade. Sentei-me num velho toco na ilha entre as duas pistas, ascendi um cigarro e fiquei rememorando aquele diálogo estranho.
- Alô!
- Sei coisas sobre sua irmã que você não sabe.
- Desculpe cavalheiro. Mas minha irmã está morta a uma semana e não vejo o porquê de querer saber algo além do que já saiba.
- Não quer saber onde ela está realmente?
- Enterrada no cemitério. Cova 534. Boa noite.
Tututututu... Trim... trim...
- Alô!
- (Gritos) Pedro, me ajuda, Pedrooooo ai ai ai... Peloamordedeus...
- ANA!!!!- Como eu ia dizendo... Tem coisas aqui que você não entende, mas se quer entender existem condições...
- QUE BRINCADEIRA É ESSA, PALHAÇO!!! Onde você gravou isso???
- Ainda acha que é uma brincadeira?
- ARGH... Deus do Céu, me ouve Pedro, me ouve...Me ajuda...(gritos)
- MINHA IRMÃ TÁ MORTA CARA! EU RECONHECI O CORPO, TÁ MORTA CARA... QUE MERDA É ESSA... ANA...
- Então... nos encontre na alameda Botafogo à meia noite.
Tutututututututu.....
Um maço de cigarros depois, aqui estava eu. Não podia ser minha irmã. Eu a encontrei no apartamento, enroscada naquele lençol. Ana sempre fora soturna, cheia de mistérios. Desde pequena era medrosa, porque dizia que monstros a perseguiam. Fantasiosa demais pras crianças de hoje em dia. A gente tinha se afastado e eu sequer suspeitava das merdas em que ela tava enfiada. Mas aquele telefonema era estranho demais. Era a voz da Ana, não tinha engano. Podia ser uma gravação. Algum esperto querendo uma grana fácil. Mas era ela, com certeza... Agora por quê? Alguém achou alguma gravação e quis se aproveitar? Que armação tava por trás disso...
Logo no inicio da rua, sombras se formavam na calçada meio iluminada. O que mais o assombrou foi o tamanho irreal de uma delas. Num piscar de olhos estava logo ali ao seu lado, como fumaça que de repente surge do nada. Tinha uns olhos esbugalhados presos numa encovada máscara branca. Suas roupas eram de um preto bazé, meio que velho demais. Ele olhou para aquela criatura e se não fosse alguém que estivesse esperando poderia até dar um grito.
- Cadê minha irmã? Disse com uma segurança que ele realmente não tinha.
- Está apressado. Queremos falar algumas coisas antes.
- Minha irmã está morta, eu vi, eu reconheci o corpo. Não me vem com esse lero lero. O que querem?
- Morta... hum... é um termo interessante pra situação atual dela... Afinal é um quase nada de vida que resta nela não é?
- O QUE VOCÊS QUEREM? Disse num grito rouco e meio lunático.
Como por encanto a sombra seguiu seu caminho entre todas as outras sombras. Ele estava lá recostado no tronco daquela árvore, sem ao menos ter muita certeza do que realmente estava acontecendo. Levantou-se meio amuado bateu o pó da roupa. Estava escuro e ele não se lembrava de como havia chegado até ali. Segundos depois o celular toca.
- Pois não?
- Senhor Pedro Oliveira?
- Sim, quem é?
- Aqui é do corpo de bombeiros. Lamentamos informar mas sua irmã foi encontrada morta em seu apartamento essa noite.
- Como Assim? A ana já tá morta....
- Como Sr.?
- Tô indo pra aí.
Lá estava ela, balançando no lustre tal qual um móbile mórbido. Tudo estava como em sua lembrança, apenas um fato destoava: O fotógrafo frente à estranha escrita na parede feita como que uma arranhadura de unha. Dizia: “É meia noite e afinal é um quase nada de vida que me resta Pedro. Você poderia ter me salvado.”
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14/01/11 - Nada do que se disse as vezes é - Poesia
Nada seria muito justo
Se soubéssemos as coisas certas a serem ditas
Um embate, um combate, uma rinha
Algumas vezes orgulho, outras só por mania
Nada pode ser assim tão correto
Então que graça teria?
Supostamente há boa intenção
Mas é claro, isso aqui é o inferno
Mesmo que eterno, ainda fedem
Essas almas desconfiadas e duplas
Mais por culpa desse mundo
Dito moderno
Muito mais fácil achar que somos vítimas
Que encarar o combate
Tomar posições exige entalhes
Que nosso escultor ainda não deseja progredir
Como posso afirmar certezas
Como? Se minhas decisões se saboreiam as correntezas
Um sem números de nadas e verdades absolutas que se dissolvem
Em mares que singro sem conhecer.
Sou um combatente, sem o menor orgulho disso
Sou um sobrevivente, e quase não sobrevivo
Nada que se saiba de mim mesmo
Pode ser contado como verdade em minha biografia
No fundo não passo de uma sombra do que se diz ser.
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07/01/11 - A Beleza fotografica em Jodi Cobb - Crítica
Sempre fui uma grande admiradora do trabalho de Jodi Cobb. O empréstimo de seu olhar para a National Geographic é sem dúvida um dos mais sensíveis e perscrutadores que particularmente já pude visualizar. Dona de inúmeros trabalhos, principalmente no campo étnico, Jodi explora espaços visuais que num primeiro momento parecem cenas comuns daquele cotidiano, mas que revelam uma intimidade longe de conseguirmos participar sem um prévio conhecimento. Suas buscas pelo oriente renderam-lhe pequenas invasões a espaços culturais fechados como os das mulheres árabes ou das Gueixas.
Hoje trazendo três fotos, gostaria de tentar analisar uma colocação de Philippe Dubois em seu livro “O Ato Fotográfico”, quando ele levanta uma das grandes lebres do estudo da imagem: A Arte é ou tornou-se fotográfica? Em Jodi Cobb talvez possamos encontrar uma resposta, pelo menos creio, que seja interessante, porque nos três momentos fotográficos que apresento aqui, temos um objeto de arte de fato na imagem fotografada. Trata-se da arte que impregna o próprio ser humano.
Essa primeira foto poderia ser um retrato normal do cotidiano se não fosse o tremendo contraste poético que a cerca. A mulher coberta pelo véu revela uma sensualidade enigmática expressa pelos olhos que pouco aparecem e pela curva sinuosa de seu quadril. Em contraste com sua vestimenta de um negro profundo, temos um dia ensolarado onde duas meninas vivem uma liberdade colorida expressa em suas roupas e na sua brincadeira de balanço. A mulher parece recortada de outra realidade e pregada ali contra aquele fundo amarelo da areia. Ela percebe a presença da câmera, mas não se rende a ela. Ao contrário, encara-a. A composição bem distribuída preenche todo o enquadramento. Mesmo que a figura da mulher tente nossos olhos para fixar sua imagem, o movimento da segunda menina reequilibra o quadro. Uma obra de arte equilibrada, se assim podemos dizer.
A foto de uma mulher etíope volta a trazer o grande contraste de cores, que é uma das marcas de Jodi. O negro profundo da pele e do véu destaca com grande força os adereços coloridos. Em plano médio, a foto deixa um ar direcional à sua esquerda que não interfere na composição, pelo contrário, só vem equilibrá-la já que quase toda a informação visual se encontra no lado oposto. Mesmo que o cenho da jovem mulher esteja pesado, a alegria contrastante de seus adereços nos leva a pensar na razão pela qual decidiu então usá-los. Ela encara a câmera de uma forma sutil, mas firme e seu olhar é tão penetrante que quase nos esquecemos da criança que está no seu colo escondida sob o véu em segundo plano.
Aqui temos uma jovem gueixa em seu ritual de pintura e preparação. Um momento artístico de concentração e técnica, flagrado pela lente de Jodi. A boca vermelha e arredondada como um coração ou uma maçã torna-se convidativa e sedutora, deixando de lado o restante do conjunto. A mão contrasta com o rosto que lembra a porcelana e mostra a realidade por trás dos sonhos vendidos por essas mestras do entretenimento, não há uma real perfeição no mundo real. O vermelho vivo da boca destaca-se por conta de um fundo esverdeado. O close revela também as imperfeições do rosto que tenta vender uma pretensa perfeição. O traço é preciso e uniforme como deve ser a arte japonesa das Gueixas. Um mundo secreto que pode ter o luxo de ser analisado somente com o auxílio das lentes fotográficas que o cercam por sua sutileza e mistério.
Diante dessas imagens, voltamos à questão de Dubois. Se não existisse o ato fotográfico e esses momentos fossem apenas eternizados nas mentes de uns poucos privilegiados, o mundo talvez não pudesse compartilhar um momento da mais pura arte, em toda a sua trama perecível e efêmera. No entanto o ato fotográfico a resgata, e resgata dentro de uma particularidade que é o olhar do artista que fotografa o que talvez não fosse nem de perto o real desejo da obra, mas é o que nos deixa de herança visual. O momento do click é o “start” decisório que captura e regulariza presente, passado e futuro dos observadores que somos nós apreciadores da arte. A Beleza artística em Jodi Cobb, portanto nasce arte pelo seu olhar perscrutador e torna-se fotográfica na concretização desse olhar através da captura do momento da imagem.
Minéia Gomes
Radialista/Jornalista/Fotografa
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